eXTReMe Tracker

18 de setembro de 2010

O DIA EM QUE MARIA DECIDIU CASAR COM O MAR


No dia em que Maria decidiu casar com o mar não havia sol, este estava escondido por detrás de todas as nuvens, as mesmas, se esforçavam para não deixar um espaço entre uma e outra. O céu não estava azul, nem verde, nem nenhuma mescla de cores que as palavras poderiam tentar recuperar quando um céu deslumbrante.

Nesse mesmo dia, o mar não era uma lagoa dessas que transmitem a sensação de suavidade e calmaria. A água não estava transparente, embora fosse outros dias; embora em outros dias, qualquer um era capaz de notar toda e qualquer vida que estava despejada neste imenso organismo vivo, o mar; Não, nesse dia estava tudo tão escuro, aliás, nada se poderia enxergar através daquelas águas.

Poucos ou ninguém se atreveriam a entrar naquele mar.

MARIA.

Maria Clara passou sua infância, desde seu nascimento, com dificuldades de viver neste mundo.
¨Talvez eu não seja daqui mesmo¨, pensava ela, mesmo não tendo ideia do que seria pertencer a outro mundo que não fosse esse.

Órfã de pai e de mãe foi criada por sua tia, irmã de sua mãe.

Nunca reclamou, nunca clamou aos pais não vivos, amava a tia com toda a sua alma e o sentimento era recíproco.

Desde pequena Maria sempre foi muito reservada, dotada de uma beleza singela e pura, nunca teve as atenções centradas nela, a não ser quando se referia ao amor e cuidado de sua tia para com ela.

Nos estudos, sempre esteve na média para acima, nas artes, teve interesse, se empenhava, se divertia e logo desistia por medo, insegurança ou pressões externas.

Disso tudo o que mais preocupava a pequena Maria não era como ela tinha se saído na prova de matemática, ou por que havia abandonado o grupo de teatro no meio dos ensaios, ou que enquanto seus amigos corriam para os braços de seus pais ela correria para o de sua tia.

Tudo isso são questões das quais ela poderia ter se ocupado em questionar e empacar , até que alguma resposta pousasse em suas asas; mas não, o que desde garotinha ocupou o seu tempo foi olhar para o céu, e tentar saber o que vinha de , para talvez entender de onde ela veio e por que seria uma tão grande tarefa lidar com os humanos, mesmo ela ainda sendo uma deles.

Quando os acontecimentos a deixavam fraca energeticamente, não importa em qual aspecto, Maria ia se lavar no mar, seu melhor amigo, juntamente com as estrelas, com o vento e muitos outros companheiros da natureza humana, mas não de natureza humana.

De todos os amigos possíveis o único capaz de curar Maria de sua dor era a água. Fosse a do mar, fosse a de um riacho, fosse qualquer água corrente natural que Maria encontrasse.

Peixes. Sim, pelos estudos do zodíaco o signo ao qual Maria pertence é o de peixes, e Maria sabe como era difícil se sentir um ¨peixe foraágua¨ porque isso muitas vezes significava a morte, ainda que ela renascesse outra vez, a morte dói.

Um hobby.

Ela adorava ler contos, livros, fossem ficções, fossem relatos históricos, biografias...

E doía nela pensar, ¨Por que dói tanto sendo a vida tão fácil e para tantos outros a vida foi tão doída de verdade, cheia de imposições, restrições, abusos sobre-humanos, abusos que dissolvem o livre arbítrio em...Nada senão dor, ódio, separatismo.¨

Vaga. É uma boa palavra que a caracteriza, não vazia, vaga, e ainda sim, profunda, intensa e livre.

Dói ser livre.

¨Dói ainda mais ser prisioneiro de uma vida sem finalidades legítimas¨, dizia ela.

Mas a busca pela liberdade tem de ser vivida e viver, dói minha querida Maria.

Maria, ai Maria.

Não suportava o conformismo, não se adaptava pra sempre nada, ¨Pois o pra sempre não existe¨, resmungava com um sorriso tolo que ela poderia fazer sendo graciosa, enquanto de canto de olho surpreendia sua tia depois de um longo silâncio no qual vinha a desenhar ciclos infinitos na areia da praia.

Sua tia sorria, com leveza. A respeitava, amava, entendia o que não podia se entender a respeito da pequena grande Maria.

Chá.

Um prazer.

Educada com os mais velhos, desconfiada dos mesmos de sua idade, curiosa com os de mais idade ainda não chamados de ¨velhos¨.

Amor. Com essa palavra a descrevo.

Se existisse uma forma física para o amor, essa seria a forma dele em sua plenitude, Maria.

Foi , foi criança ruim, sentiu inveja, raiva, desejou o mal, fez o mal, sofreu por isso, sofreu por ser humana, mas senão humana, o que mais poderia ser?


Delicada.

Muitas vezes foi alvo de ¨sarros¨ por seus colegas, dava de ombros, mesmo que se importasse, logo passava, nada que uma boa água corrente não pudesse curar.

Enquanto de pernas pro ar deixava a água bater por entre suas pernas gargalhava ao céu, ¨...e quem precisa do seu sarro se você não tem a si mesmo para colocar um próprio chapéu de bobo e rir de si, hahahahahahahahha¨.

Aprendeu a ser sendo boa, se fosse ¨¨consigo mesma, se pudesse rir de si mesma, não importaria quem risse dela, ¨Aliás, pobre quem não se coloca no lugar de bobo antes de tentar ferir alguém para alimentar o seu próprio ego, aliás, pobre não, pobre são aqueles que não tem o que comer, o que vestir, o que escolher¨. Riu de si mesma mais uma vez.

Seu melhor amigo. O mar.

Suas melhores confidentes, as estrelas.

¨Quero ser astrônoma¨.

¨Quero ser isso, quero ser aquilo, quero ser tudo, quero ser nada, não quero mais, deixei de querer, quero que pare de doer...¨.Pensou certa vez.

Sua tia a cada dia escutava as histórias de Maria, os desejos, apoiava todos.

Maria cresceu, se tornou mulher, muitas coisas mudaram, obrigações, cotidiano, responsabilidades.

Uma coisa não mudou, as antigas questões, que estavam presentes mais que nunca.

Linda.

Grande.

Poucos poderiam notar.

Sutil.

¨Pra que revidar¨. Sorriu.

Se existe uma coisa que ela aprendeu na escola, nos livros, nas histórias, nas experiências foi:

¨A história sempre se repete, as mesmas aflições, praxes, clichês, o que muda é o contexto; e não me entenda mal, não é que o contexto não seja complexo, mas no fim, é tudo um muito do mesmo.¨.

Vaga e, incrivelmente perspicaz.

Maria.

No dia em que Maria decidiu se casar com o mar, já havia presenciado muitos mares de águas límpidas, céus que incandesciam em cores e sensações que só poderiam pertencer a atmosfera, já que essa não se encontra tão perto da terra dos humanos.

Praias vazias, praias cheias de pessoas.

¨As prefiro vazias¨. Maria, que sorriso tolo...

Não é que gostasse de ser só, mas às vezes só poderia ser ela mesmo se estivesse só.

Precisava se recuperar de algumas cóleras para poder ser amor entre os outros e, poucos se bastam de ser só amor para os outros. Maria é uma dessas pessoas, de sorriso tolo.

O mar a chamava nesse dia, ela de longe escutou através de um mensageiro, o vento. Derrubou a panela no chão, estava estabanada, cheia de cóleras, precisava se curar e antes de buscar a solução com o seu velho amigo, ele a clamou com urgência.

Panelas sobre a mesa, panelas no chão, ela saiu de casa deixando a porta aberta e a cortina a voar para lá e para cá.

Sua tia fumava na janela do segundo andar do casebre, sorriu e consentiu.

Sopa e vinho.

Prazeres.

Para a tia de Maria, se existisse uma forma física que expressasse a vida em sua onipresença, essa forma seria a de Maria.

A tia tinha desfrutado a infância de Maria, mas Maria a mulher, se tornava a cada dia mais interessante.

Correu, Maria, correu, soluçando, chorando.

A dor dói, a dor dói.

Parou subitamente, estática, cabelos ao vento, olhos estatelados, o mar adentro.

Nem tudo o que brilha é ouro, o dia não brilha, o vento está corrompido em êxtase, o mar em avalanches de almas, de dor, ele suplica por amor, pelo amor de Maria.

Maria o entende, Maria quer ser curada, senão da vida, do que hoje dói e está disposta a dar algo em troca por isso.

Sempre o fez, trocar, afinal, nunca achou justo que o mar a curasse e nada levasse em troca, nunca sabia de fato o que ele levava, mas sempre estava disposta a dar tudo e isso dizia pra ele.

Não só com o mar trocava, acreditava nas trocas de fato, não se vive sem circular, tudo há de circular e a dor se torna mais amena, enfim, o prazer existe.

Ela sorriu.

O dia é cinza, o mar rebelde, o vento é louco.

Não pensou duas vezes, porque aprendeu em suas viagens que o pensamento é um só, pensava e agia, se a ação fosse duvidosa, a abandonava sem olhar para trás.

Finito.

Caminhou sorrindo, gargalhando pisou na água, fria, tomou conta de todas as sensações,
tudo fluiu.

¨Aceito¨gritou de braços abertos, mergulhou no mar.


Maria.

Bela Maria.

Morreu.

Uma vez mais morreu. ¨Como é possível morrer tantas vezes?hahahahahahahaha¨

Voltou à superfície, sorrindo, levemente, sem pressa, sem pudores com o marido que a engolia, devorava sua traseira enquanto Maria caminhava em direção a terra firme.

Antes de sair completamente da água deu uma viradinha.

Sexy Maria.

Se houvesse uma atitude que eu descreveria ao presenciar o que Maria disse agora ao mar, a representaria por uma piscadela e um sorriso de lado que faz a covinha da bochecha rasgar.


¨Amar é ser livre, e por isso agora te deixo, mas prometo voltar e cada vez que estiver mergulhada em ti, deixarei meu amor, o levo comigo, o esparramo em ti, só por ti que é possível amar¨.


E assim, Maria saltitante foi-se de volta a caminho de casa. dançando com borboletas e rodando junto aos mini tufos de vento que rodopiavam as algas secas do mar.

¨Me curo da dor hoje, haverei de ter mais dores em meu caminho, haverei de levantar minha cabeça e continuar, eu aceito a dor, eu aceito a vida, eu aceito o amor, mar...Obrigada por me fazer enxergar, o que não se pode ver, só sentir¨.

Maria...Que sorriso tolo, que bela que és...

Caminhava com um sorriso diferente quando sua tia a avistou ainda da janela do segundo andar do casebre coberto por trepadeiras.

Um sorriso ainda mais tolo do que o de antes.

Veio graciosamente desengonçada com uma coroa de flores na cabeça, ensopada num vestido rasgado na altura das coxas, branco, ainda com algas verdes que desejavam estar perto de Maria: são pedaços do mar...

Brilhou em olhares para sua tia, daí se entendia a cumplicidade, o amor, a eternidade num túnel de olhares.

A tia gesticulou com a cabeça como quem vai descer ao encontro de Maria.

Maria ainda sorrindo se doa ao momento, olha para o céu, entra no casebre.

Na janela, manjericões, salsinhas, gengibre.

Lá fora um céu cinzento, um vento louco, nuvens, trovoadas.

Sopa e vinho.

¨Vai chover hahahaha, que bom¨!

Tola, tola, Maria!

Amo a ti Maria.

Gargalhadas na noite a fio, e eu acredito que elas são uma só, a tia e a Maria, mas nunca reparei muito na tia, que apesar de ser tia parece muito jovem.

Acredito que isso se deve a convivência com Maria, Maria é mágica, e acredito ainda que a tia levou e leva a relação com Maria da forma como conduz para preparar-la, sei lá eu para que. Pois ela também sabe que Maria é mágica, não me disse em palavras, mas percebi pelo jeito como me olhou quando me viu observando Maria.

Uma coisa dessas quando o tempo se funde com o espaço e uns se fundem em outros... 
É bem provável que toda a magia de Maria resida também na tia e então, qualquer semelhança não é mera coincidência.

Disso nada sei, apenas senti, por isso sugiro.

Preparações.

No horizonte se avistava um casebre, porta aberta, janela aberta, as cortinas dançavam de um lado a outro.

Maria e a tia.

Vinho e sopa.

A chuva corria na direção do povoado e alcançou o casebre de Maria.

A porta e a janela continuavam abertas.

Ah, Maria.
Ria Maria, chore Maria, viva Maria.


25 para 26 de setembro de 2009. Thira, Oía, Kolumbus.